Deficiência visual : Cegueira e baixa visão

 

Deficiência visual: cegueira e baixa visão



 

 Os estudos sobre a história das deficiências demonstram que as pessoas com deficiência visual, assim como outras condições, foram discriminadas e excluídas socialmente por muitos séculos e conquistaram, com esforço, as garantias legais de inclusão social e educacional das políticas públicas. As referências aos cegos são feitas em inúmeras obras de arte como a de Pieter Bruegel, denominada A parábola dos cegos, de 1568.

No entanto, ainda há pessoas que conhecem pouco sobre a deficiência visual e as principais causas dessa condição, dentre elas, alguns educadores. A deficiência visual diz respeito a condições de baixa visão e de cegueira parcial e total. A definição de baixa visão, ou visão subnormal, não é uma tarefa simples, pois há uma diversidade de comprometimentos que são causados às funções visuais e que envolvem desde a percepção de luminosidade à redução da acuidade e do campo visual e irão interferir na possibilidade de realização de tarefas e no desempenho geral do indivíduo com deficiência visual (SÁ; CAMPOS; SILVA, 2007).

 A Fundação Dorina Nowill (2021) estabelece que a pessoa com visão subnormal ou baixa visão é aquela que possui 30% ou menos de visão no melhor olho, mesmo depois de realizados procedimentos clínicos, cirúrgicos e de correção com óculos. Indivíduos com baixa visão podem apresentar dificuldades para visualizar detalhes como as feições das outras pessoas e, no ponto de ônibus, não reconhecem os letreiros; em sala de aula, os alunos conseguem enxergar a lousa, mas não serão capazes de identificar com precisão as letras (FUNDAÇÃO DORINA NOWILL, 2021).

 Algumas pessoas com baixa visão tendem a apresentar nistagmo, que é o movimento rápido e involuntário dos olhos, que leva a uma redução da acuidade visual e à fadiga no ato da leitura. O nistagmo também ocorre no caso de albinismo, que é a falta de pigmentação congênita que atinge os olhos e reduz a capacidade visual. A pessoa com baixa visão pode demonstrar oscilação na condição visual de acordo com o seu estado emocional, a posição espacial em que se encontra e as condições de iluminação natural ou artificial (SÁ; CAMPOS; SILVA, 2007).

A acuidade visual é definida como a distância do ponto A ao ponto B, ao se desenhar uma linha reta, na qual o objeto é percebido pela visão. O campo visual, por sua vez, é “a amplitude e a abrangência do ângulo da visão em que os objetos são focalizados” (SÁ; CAMPOS; SILVA, 2007, p. 17).

 A cegueira é definida como a alteração parcial ou total que acomete a capacidade de perceber core, tamanhos, distâncias, formas, posições e/ou movimentos, e a cegueira parcial está relacionada aos casos dos indivíduos que têm um resíduo de visão, podendo enxergar e contar dedos a uma pequena distância e/ou visualizar vultos. Ademais, os indivíduos mais próximos da cegueira total são aqueles que ainda são capazes de perceber a projeção de luminosidade, de fazer a distinção entre o claro e o escuro e de identificar de qual direção provém a fonte de luz.

 A cegueira total propriamente dita (também denominada como amaurose) é a perda completa de visão, a qual é inexistente e não há nem a capacidade de percepção luminosa (SÁ; CAMPOS; SILVA, 2007). Para o Ministério da Educação (MEC), os alunos cegos são identificados como os que não têm visão suficiente para aprender a ler em tinta impressa e precisam utilizar os outros sentidos além da visão, como tato, audição, olfato, paladar e o sentido cinestésico (capacidade de percepção do movimento ou de repouso do corpo) para aprenderem e se desenvolverem.

Nessa classificação utilizada pelo MEC, os alunos cegos são aqueles incapazes de enxergar, os que ainda têm a percepção da luminosidade e os que percebem o claro, o escuro e o delineamento de algumas formas. Considera-se que a percepção de luz e/ou de vultos, mesmo que mínima, é útil para a orientação espacial, movimentação e autonomia de crianças com deficiência visual (BRASIL, 2006).

Ainda levando em consideração essa classificação do MEC, alunos com baixa visão são aquelas que utilizam pequena capacidade visual para explorar o entorno, a fim de conhecer o mundo e aprender a ler e escrever. Esses alunos se diferenciam nas suas potencialidades visuais, aprendem a utilizar a visão com a melhor forma possível, mas também podem utilizar os outros sentidos simultaneamente para aprender conceitos e construir conhecimentos. Há casos em que a perda da visão leva à necessidade de extirpação do globo ocular e ao uso de próteses oculares em um dos olhos ou em ambos.

 Quando há ausência da visão em apenas um dos olhos, no caso da visão monocular, o outro olho terá que se incumbir das funções visuais, o que, geralmente, não causa transtornos no uso eficiente da visão (SÁ; CAMPOS; SILVA, 2007). A visão monocular foi considerada como deficiência sensorial do tipo visual a partir de 23 de março de 2021, pela Lei n. 14.126/2021, para todos os efeitos legais. Caso a criança se torne deficiente visual após os cinco anos de idade, ela terá desenvolvido quase todo o seu potencial visual e poderá conservar as imagens na memória visual; mas aquelas que nascem cegas ou perdem a visão antes dos cinco anos, terão necessidades de aprendizagem diferentes das demais (BRASIL, 2006).

 Existem ainda outras dificuldades apresentadas pelos alunos com deficiência visual. São elas:

 • Acuidade visual reduzida: dificuldade para visualizar de longe, necessitando se aproximar das pessoas e dos objetos mesmo que já utilize recursos óticos.

 • Campo visual restrito: alteração na orientação e no deslocamento no espaço quando se compara uma criança a outra que enxerga 10 bem e tem um campo visual de 180 graus na horizontal e na vertical.

 • Visão de cores e sensibilidade aos contrastes: alteração visual que leva à incapacidade de distinção de cores como verde, vermelho, azul e marrom ou de cores vibrantes e com bastante luminância, como amarelo e laranja.

 • Adaptação à iluminação: extrema sensibilidade à luz, que leva ao extremo desconforto visual, à sensação de ofuscamento, à irritabilidade e ao lacrimejamento constante nos olhos. Porém, há crianças que, ao contrário, precisam de mais iluminação e luz dirigida aos objetos para enxergarem melhor (BRASIL, 2006).

 As causas da deficiência visual são classificadas em causas congênitas, ou hereditárias, e adquiridas. Segundo Mosquera (2012), as causas congênitas, ou hereditárias, envolvem os descuidos dos pais e/ou dos responsáveis com a criança, como a falta de exames pré-natais, de acompanhamento médico e de aplicação de vacinas; as fatalidades devido a erros genéticos; e as causas congênitas, como o glaucoma, a catarata e a retinopatia congênitas. As causas adquiridas são consideradas as que ocorrem após o nascimento, especificamente se a criança já adquiriu memória visual sobre o mundo externo.

 O documento Atendimento Educacional Especializado: Deficiência Visual, da Secretaria de Educação Especial (SÁ; CAMPOS; SILVA, 2007), relaciona as causas das deficiências visuais aos:

 • Fatores hereditários ou congênitos: malformações oculares, como o glaucoma congênito hereditário e/ou a catarata congênita, causadas por infecções durante a gestação; a amaurose congênita de Leber, que é uma doença degenerativa hereditária que provoca alterações graduais na atividade elétrica da retina (tecido do 11 olho que detecta luz e cor) e leva à perda grave da visão a partir do nascimento, assim como outros problemas oculares, como a sensibilidade à luz ou o ceratocone.

 • Fatores adquiridos: aqui se incluem a atrofia ótica, as degenerações retinianas e as alterações visuais corticais; a retinopatia da prematuridade, que é causada pela imaturidade da retina em decorrência de parto prematuro ou de excesso de oxigênio na incubadora; o descolamento de retina; a catarata; a degeneração senil de mácula; o glaucoma; as alterações retinianas devidas à hipertensão arterial ou o diabetes; os traumatismos oculares, como os traumas mecânicos (contusões, corpos estranhos e feridas) e físicos (excesso de frio e de calor).

 O desenvolvimento psicológico, cognitivo, emocional e social de algumas pessoas com deficiência visual pode ocorrer de forma conflituosa, o que pode influenciar o seu comportamento nos diversos contextos, como o escolar, o das relações afetivas e o da própria aprendizagem. Isso ocorre, principalmente, porque a visão é considerada como o sentido soberano em uma hierarquia sensorial, ocupando uma posição central em relação à percepção e à integração de formas, contornos, tamanhos, cores e imagens que irão estruturar a composição da paisagem e do ambiente (SÁ; CAMPOS; SILVA, 2007)

. A visão é a capacidade sensorial que interliga as outras capacidades e que permite associar som e imagem, imitar gestos e/ou comportamentos, levando a criança à exploração de espaços amplos e restritos. A pessoa capaz de enxergar, chamada de pessoa vidente, estabelece uma interação predominantemente visual com o ambiente desde o início da vida e será sempre estimulada a olhar o mundo ao redor. No entanto, a cegueira impede essa capacidade de percepção das características físicas, da posição e/ou do movimento no campo de visão de forma 12 mais ou menos abrangente e, em certos casos, há até mesmo perda da audição, como é o caso da surdocegueira, ou a associação de outras deficiências. A potencialidade de uso dos órgãos sensoriais é semelhante em todos os indivíduos, mas o desenvolvimento de informações táteis, auditivas, sinestésicas e olfativas tende a ser maior em pessoas cegas devido ao maior uso desses sentidos para decodificar e armazenar as informações na memória. Porém, a falta da visão faz com que as informações sejam recebidas de forma intermitente e fragmentada pelos demais sentidos, levando ao maior desenvolvimento da audição, do tato, do olfato e do paladar como resultantes de ativação contínua e permanente, mas não como um fenômeno extraordinário e, assim, os sentidos remanescentes agem de forma complementar e não compensatória e/ou isolada (SÁ; CAMPOS; SILVA, 2007).

 É fato comprovado por pesquisas que as crianças com deficiência visual enfrentam desafios no seu desenvolvimento, especialmente, para a aquisição e o desenvolvimento da linguagem. O fato de a criança depender dos outros sentidos (tato, audição, olfato, paladar), das informações expressas pelos outros e/ou de recursos assistivos para o estabelecimento de contato com o mundo pode gerar dificuldades em relação à compreensão e à elaboração da linguagem.

 Além disso, como a visão é fundamental para a organização das experiências e para a formação de imagens no pensamento, a criança cega, justamente por não ter acesso à percepção visual, desenvolverá a linguagem com experiências sensoriais diferentes de uma criança vidente (TONIAZZO, 2015). Essas diferenças no desenvolvimento do pensamento e da linguagem entre crianças não videntes e videntes levam a diferenças na formação 13 de conceitos espontâneos, ou seja, de conceitos que não dependem da aprendizagem formal. Outra característica é que a linguagem das crianças cegas, em etapas iniciais do desenvolvimento da linguagem, caracteriza-se pela aparente ausência de sentido, chamada de verbalismo.

 Há ainda casos de crianças com deficiência visual que apresentam fala ecolálica, que é a repetição de uma parte de palavras ou frases como em “boneca ca”. A partir disso, pode-se perceber que as habilidades sociais se desenvolvem nas pessoas com deficiência visual com maiores dificuldades devido às características de interação entre pessoas videntes e não videntes, como a emissão e a decodificação de comportamentos não verbais. Portanto, é possível dizer que um aspecto importante para o desenvolvimento de pessoas com deficiência visual é a acessibilidade, ou seja, a possibilidade de serem incluídas, de participarem de atividades e de acessarem as informações do entorno.

 

Referência:

BAIXA visão e cegueira: Baixa visão e cegueira. [S. l.], 2016. Disponível em: http://portalvidasaude.com/sem-categoria/baixa-visao-e-cegueira-2/. Acesso em: 16 jun. 2022.Referência: BAIXA visão e cegueira: Baixa visão e cegueira. [S. l.], 2016. Disponível em: http://portalvidasaude.com/sem-categoria/baixa-visao-e-cegueira-2/. Acesso em: 16 jun. 2022.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

WHY HER

LUDICIDADE NO PROCESSO DE ENSINO - APRENDIZAGEM.

TESTE SITUACIONAL OU ESTUDO DE CASO.